DIZER ADEUS ÀS COISAS 

(2015-2018)

"dizer adeus às coisas" é uma instalação de fotografia e texto para ocupar o fundo de um corredor, uma sala isolada, um quarto vazio, uma cave, um sótão. "dizer adeus às coisas" é um lugar onde se chega depois de se ter feito um caminho e se repousa para voltar a caminhar.
"dizer adeus às coisas" é uma coleção de vestígios, de restos, de rastos, de objetos, pessoas, animais, imagens, palavras, gestos, pensamentos.
"dizer adeus às coisas" é uma remembrança.
"dizer adeus às coisas" é um diálogo entre o que (não) aconteceu, o que (não) podia ter acontecido e o que (não) pode acontecer.
"dizer adeus às coisas" é uma tentativa de inscrever um trajeto na paisagem, ou pelo menos, as marcas que ele deixou.

apontamento #01

"Todos os objectos designam um abandono: eis o início"

(Rui Nunes, in "Barro")

Uma teoria da imagem (ou a performance do mundo)
[apontamentos sobre a série Dizer adeus às coisas, de Nuno Leão] 
ensaio de Diogo Martins 

"Em Dizer adeus às coisas, desfaz-se qualquer hierarquia de olhares, desalinha-se naturalmente as taxonomias das ciências naturais: um baloiço ao abandono e um anjo de jardim e a beira de um tanque e uma mão grácil. E e e - aquilo que Deleuze define como "uma micro-política das fronteiras, contra a macro-política dos grandes conjuntos" (Deleuze, 2003: 70), "o gaguejar criador" ou a reivindicação proustiana de um "uso estrangeiro da língua" - "[...] aí onde as imagens se tornam demasiado cheias e os sons demasiado fortes" (ibidem). Resulta desta contiguidade ontologicamente selvagem uma espécie de impessoalidade inaugural, ou a restituição de um "neutro vivo das coisas", para citar de memória Clarice Lispector, ou a epoché dos antigos estoicos e filósofos céticos.[i] O facto de serem imagens desprovidas de presenças humanas cientes do flash que as capta acentua a sua natureza espectral, alucinante, na qualidade de imagens cujos elementos fotografados não contemplam qualquer reação sensível à fotografia, qualquer insurreição perante a imagem resultante (como nos acontece quando reagimos às fotografias que nos tiram, ao aturdimento ontológico de um certo retrato real, efetivamente real, não condizer com a idealidade da nossa mais íntima figuração de nós próprios, etc.).

Mais: a quase ausência de presenças humanas acentua a natureza enigmática, egípcia (cf. Mario Perniola), destas imagens; uma certa dimensão monumental, mesmo quando, na génese destas fotografias, nada há de fabulosamente exuberante nas coisas fotografadas (afinal: o esbeiçar de um colchão velho, uma carrinha estacionada, um cão doente, etc.). Esse "ar" de monumentalidade advém, porventura, da consequência imediata de estas coisas terem sido fotografadas: são imagens registadas, inscritas na ficção da sua perenidade, não regidas pelo tempo cronológico. Sem passado ou futuro, são um contínuo resgate do presente, daquele momento presente. Como se pudessem perdurar, este carro ou este traço de avião recobrem-se de um halo de eternidade objetual, de uma espécie de consagração anunciada. Talvez como quem constrói às escuras a sua cidade em ruínas, os seus templos votados ao abandono, o cenário morto onde os séculos fazem eco e os turistas se apinham, mas baixando a voz, como quem intui o respeito pré-histórico, a-histórico, venerando, pelo chão de um sítio consagrado às musas. (O fascínio romântico pelas ruínas: um sentimento trágico desprovido de tristeza, porque aí o sujeito reconhece a destruição das coisas, inclusive dos artefactos humanos, dos produtos do seu trabalho, como parte elementar da natureza - "[...] porque a destruição, aqui, não é algo sem sentido que vem de fora, mas antes a realização de uma tendência inerente à camada mais funda da existência do objecto destruído", segundo George Simmel, apud Medeiros, 2016: 13)."   

excerto do ensaio publicado na íntegra no livro dizer adeus às coisas, seguido de uma teoria da imagem (ou a performance do mundo) 

Livro de Fotografia e Ensaio 
dizer adeus às coisas, seguido de uma teoria da imagem  (ou a performance do mundo)
fotografia_  Nuno Leão | ensaio_ Diogo Martins | edição gráfica_ Rita Pestana | produção_ Terceira Pessoa

[Instalação]

Fotografias em diapositivos 35 mm, projetor de diapositivos carousel, mesa e cadeira

Projeção de fotografia em diapositivos 35mm, operada pelo espectador, num ambiente escuro e recolhido.


MENÇÕES

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